April 2

Número de marchas em uma bicicleta: quanto mais, melhor?

Quantidade de marchas numa mountain bike.

Nesse artigo responderei a pergunta “quantas marchas minha mountain bike precisa ter?”.  Ele foi dividido da seguinte maneira:

  1. Quantidade de marchas;
  2. Alcance (ou range);
  3. Pedivelas únicos e o futuro do MTB;
  4. Não troque só por trocar.

No final da leitura você já conseguirá entender se maior número de marchas resulta numa mountain bike melhor. Vamos lá:

1. Quantidade de marchas numa MTB

A primeira coisa que quero abordar nesse artigo é porque a quantidade de marchas, que significava muita coisa em bikes de 20 anos atrás, já não é um diferencial tão grande hoje em dia.

E pra isso é preciso entender que por um bom tempo as bicicletas sequer possuiam marchas. Na realidade, se pensar que a bicicleta existe há mais de 100 anos, bicicletas com marchas é uma coisa muito recente.

Geoff_Apps_&_Range_Rider from cleland cycles in black and white

No passado, mais marchas significava que você teria uma condição para pedalar em subidas mais íngrimes e também em planos longos. Ou seja não seria duro na subida, e sua perna também não giraria em falso no plano ou na descida.

Pra se ter uma ideia de como isso era um conceito inovador, por um bom tempo bicicletas com marchas sequer possuiam câmbios como os que vemos hoje. Era um sistema bem mais rústico.

old bike drivetrain model rear derailleur

Ok. Em suma: antigamente “mais marchas” = “o ciclista consegue pedalar em mais velocidades diferentes”

Os dois problemas com “mais marchas”

Com a evolução das bikes, no entanto, começamos a ver a evolução das transmissões por parte de fabricantes como Shimano e Campagnolo.

Nas mountain bikes, o crescimento do número de marchas culminou com 3 coroas na pedivela e de 6 até 10 pinhões no cassete/catraca.

Isso originou dois problemas com bicicletas que começavam a ter cada vez mais e mais marchas.

1º problema é a corrente cruzada.

crossed chain bicycle diagram

Nesse caso, se o ciclista está usando a coroa grande na frente com a coroa grande atrás,  não só esticaria muito seu câmbio, como faria a corrente “cruzar” com as coroas, quando visto de cima. Isso gera desgaste nas coroas, corrente e câmbio traseiro, muitas vezes raspando no câmbio dianteiro, que não suporta tamanho ângulo.

O indicado para essa situação é que o ciclista não use a coroa maior (da direita) na frente com as coroas maiores (da esquerda) atrás. O mesmo vale para o contrário: não usar a coroa menor (da esquerda) na frente com as coroas menores (da direira) atrás.

Na prática, isso quer dizer que se a bike tivesse 8 coroas atrás e 3 na frente, ela não terá 24 marchas úteis, mas sim 14, por conta da limitação da corrente cruzada.

Mas não para por aí.

O 2º problema é a repetição de marchas

Eu tentei economizar ao máximo no “matematiquês”, então meu exemplo é o seguinte:

Imagine que você está pedalando com sua bike de 24 marchas (3 na frente e 8 atrás) num lindo e ensolarado domingo de manhã. Você se depara a frente com uma subida leve, mas que vai ter forçar mudar da marcha atual.

Vamos levar em consideração que você está girando os pedais a uma velocidade de 90 RPM – rotações por minuto (ou seja, a cada minuto o pedivela completa 90 voltas).

Para manter sua velocidade de 20 quilômetros por hora, você vai ter duas opções:

(1) coroa do meio na frente – com 34 dentes – e no sexto pinhão atrás – com 21 dentes;
(2) coroa menor na frente – com 24 dentes – e no terceiro pinhão atrás- com 15 dentes.

Olha a mágica: ambas as marchas oferecem a mesma velocidade!

Isso quer dizer que várias marchas de uma bicicleta de 24 marchas são repetidas. Isso também quer dizer que várias marchas de uma bicicleta de 18, 21, 27 e 30 marchas tambem são repetidas!

Ou seja, se descontarmos as marchas que a bike não poderia usar por conta da corrente cruzada e as marchas que são repetidas, veremos que nossa bike de 24 marchas usada no exemplo tem na verdade umas 10 ou 15 marchas.

O que nós queremos não é mais repetições da mesma marcha. O que queremos é ter marchas para pedalar tanto em subidas íngrimes, subidas leves e terrenos relativamente planos.

O que queremos, além de marchas, é alcance:

2. Alcance (ou range)

Continuando na nossa história de evolução das transmissões de mountain bike. Recentemente começou a se tornar cada vez mais presente nas linhas da SRAM, Shimano, Microshift e outras fabricantes de transmissão a relação com apenas uma coroa na frente!

Isso mesmo, bicicletas com 9, 10, 11 e 12 marchas e sem câmbio dianteiro.

E para que isso pudesse acontecer, muita coisa na tecnologia de transmissão teve que mudar. Por exemplo:

1. Agora os cassetes precisam ser maiores. Alguns tem mais de 50 dentes e 12 coroas/pinhões!

2. Agora câmbios dianteiros precisam ser maiores e mais resistentes. Alguns precisam se esticar para comportar pinhões de 52 dentes e também de 10.

xt xtr rear derailleurs side by side

3. Agora a peça que conecta o cassete na roda precisa comportar mais e mais coroas. Novas tecnologias surgiram, como Micro Spline, da Shimano.

E é aí que a ideia de “uma bicicleta com mais marchas é melhor” cai por terra. Por que o queremos não é mais marchas, mas sim a possibilidade de pedalar tanto numa subida íngrime como num plano longo ou até mesmo numa descida. E fazer tudo isso em diversas velocidades.

A essa capacidade da transmissão de nos possibilitar pedalar tanto na velocidade rápida no plano como na velocidade lenta no morro chamamos de alcance (ou range, em inglês). Normalmente esse atributo é acompanhado de porcentagem.

Quer ver um exemplo? Os novos conjuntos top de linha da SRAM estão vindo com cassetes com o pinhão menor de 10 coroas e o maior de 52 coroas: um range de 520%.

E isso nos leva ao próximo ponto:

3. Pedivelas único – o  futuro do MTB

Ok, então mais marchas não é sinônimo de bike melhor. E também o que importa é que minha bicicleta tenha alcance maior para me proporcionar pedalar em várias velocidades.

Alguém poderia perguntar agora: mas se minha bike tem 27 marchas – 3 na frente e 9 atrás – eu posso muito bem ter mais alcance que uma bike de 1 coroa, não é.

A questão é: onde está esse alcance? Vamos ver pelo ponto de vista de velocidade

Olha essa situação:

  1. Você está com uma bike de 24 marchas
  2. Você está pedalando a 90RPM (90 giros do pedal a cada minuto);
  3. Você tem um pedivela com coroas 42-32-24;
  4. Você tem um cassete com pinhões 11-13-15-17-19-21-24-28-32;

Nesse caso, a velocidade máxima que você pode atingir pedalando é 47km/h e a velocidade mínima que você pode atingir pedalando é  9,3km/h.

Mas e se eu estiver com uma transmissão como a Microshift Advent de 9 velocidades, com 1 na frente de 32 dentes e 9 atrás de 11 a 42 dentes. Mínima de 9,4km/h e máxima de 36 km/h.

A questão é: Quantas vezes pedalamos mais que essa velocidade numa mtb?

E se eu pegar então um conjunto ainda mais sofisticado como um SRAM SX, de 12 velocidades, sendo a coroa com 32 dentes e o cassete de 11 a 50? Aí temos mínima de 7,9km/h.

As vantagens de ter 1 única coroa.

sram xx1 eagle drivetrain with a big range on an orbea bike

Não é só porque a tecnologia das pedivelas de coroa única avançando e tendo um alcance cada vez melhor que justifica cada vez mais as bikes tenderem a um pedivela único.

Há outros pontos, como por exemplo:

  • Mais leve: remove 2 coroas, câmbio dianteiro e passador dianteiro.
  • Menos manutenção: justamente por ter menos peças para trabalhar.
  • Corrente cai menos: pedivelas únicos possuem coroas próprias que dificultam o “cair” da corrente.

E eu poderia continuar.

O que quero dizer com isso é que cada vez mais a tecnologia dos pedivelas únicos possibilita que tenhamos um alcalce muuuito bom mesmo com uma bike de 9 marchas, com uma bike mais leve e com menos necessidade de manutenção.

4- Não troque por trocar

Eu não acho que esse artigo deve fazer você sair correndo comprar novos componentes para transformar sua bike e deixá-la com uma única coroa.

Muito menos que ele faça você comprar uma bike nova com coroa única sendo que sua bike atual te atende perfeitamente.

O que quis com esse artigo foi responder a pergunta:

“Quanto mais marchas numa mountain bike, melhor?”

A resposta curta é “não”

A resposta longa é:

  • Não, porque várias marchas acabam sendo cruzadas;
  • Não, porque várias marchas acabam sendo repetidas;
  • Não, porque a bike pesa mais e exige mais manutenção.

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