April 3

O que é Gravel Bike? Um guia completo

Gravel Bike.

Uma speed com pneus de Mountain Bike? Uma Mountain Bike com guidão drop de speed? Um nome mais chique para as já existentes Cyclocross?

Afinal, o que é uma Gravel Bike e faz algum sentido você comprar uma dessas bicicletas?

Quando fiquei sabendo da existência desse tipo de bicicleta logo me empolguei. No Brasil há uma (quase) completa inexistência de trilhas de Mountain Bike e boa parte dos ciclistas com MTB pedalam em estradões.

Uma bike dessas seria perfeita para o tipo de terreno que existe aqui em minha região, já que todos os mountain bikers com cross country pedalam em estradas de terras e não em trilhas. Resolvi tirar a limpo essa história e depois de guardar uma grana por um tempo comprei minha gravel:

Como de costume, vamos por partes. Nesse artigo abordarei os seguintes temas:

  1. O que é uma Gravel Bike
  2. Quais Gravel Bikes existem no mercado hoje
  3. A minha experiência com a Gravel
  4. Ter ou não ter uma Gravel

Vamos lá!

1. O que é Gravel Bike

A gravel bike é uma bicicleta desenvolvida para andar em estradas de cascalho e de terra. “Gravel” em inglês quer dizer “cascalho” e esse é seu habitat natural.

Apesar de possuir uma semelhança aparente inegável com uma bicicleta de estrada, ela também se difere das speeds em vários pontos. Alguns deles:

  • Pneus mais largos – Pneus 35, 38, 40mm ao invés dos habituais 23, 25 e 28mm das estradeiras. Algumas gravel possuem pneus de mountain bike mesmo, 2.2″ em diante.
  • Quadro e geometria – Isso daria um capítulo inteiro a parte. A geometria é muito mais “relaxada” que de uma estradeira, o espaço para os pneus no quadro e no garfo é maior, entre outros. Para ilustrar duas bikes da Specialized. A primeira é da famosa bike de estrada Tarmac, e a segunda é da gravel Sequoia:

  • Relação de marchas mais leves – É comum encontrar gravel bikes com relação 46×36 ou mesmo uma única coroa de 42 ou 40 dentes. O cassete muitas vezes tem o range de mountain bikes, como 11×42.
  • Freios a disco – Não que as Speeds não possuam essa tecnologia, mas ela é bem mais comum de ser encontrada nas Gravel.
  • Guidão Flared Drop – Eu não acho que esse estilo de guidão tenha um nome em português. E é um dos detalhes que acho mais massa das Gravel. Nem todas têm, mas pode ajudar o controle da bike em trechos mais técnicos, trilhas ou descidas. Eles são “largos”, possuem drop e reach mais curtos:

Esses são alguns detalhes técnicos das Gravel Bikes. Mas qual são as opções de bikes como essa para compra no Brasil hoje?

2. Quais as opções de Gravel Bikes no mercado hoje

Existe um número limitadíssimo de opções de Gravel Bikes no Brasil hoje.

Nacionais fabricadas em linhas de produção há apenas duas. Coloquei ambas aqui, além de um exemplo de uma que pode ser importada, como outra feita sob medida

Vamos a essas opções:

Sense Versa


Talvez a opção mais acessível de Gravel Bike no mercado nacional seja a Sense Versa. A biké vem muito bem montada, com componentes que fazem sentido para uma gravel de entrada – e que o bolso brasileiro pode pagar.

Eu recomendo fortemente a marca. Todos os ciclistas com o qual tenho contato amam a Versa.

Ela é um pouco difícil de encontrar a venda na internet, mas tem esse vendedor no Mercado Livre com o preço de tabela dela. Se você tem interesse na bike, eu aproveitaria.

Soul Spry

A Brasileira Soul anunciou recentemente o lançamento de sua bike dedicada ao cascalho e estradão: a Spry. Ela traz componentes de nível intermediário a avançado, como o sistema Sram Apex 1×11, freios hidráulicos, quadro em alumínio e garfo em carbono.

Ela tem um detalhe bem legal também, que é o cabeamento interno.

Como de costume, por ser marca nacional, o custo X benefício é muito interessante, anunciada a R$6.900 na página da Spry no site da Soul Cycles.

Dinâmica Guará

A Guará é fabricada pela Dinâmica, em São Paulo. É uma opção decente. Porém com a auta do dólar, o preço da bike subiu bastante.

Também tem a questão da demora na entrega dela, que passa de meses.

Entre ela e a Versa, eu certamente ficaria com a Versa.

Specialized Diverge

A Diverge é provavalmente a linha de gravel bikes mais famosa do mundo. A Specialized possui alguns modelos da Diverge (A1, E5, Comp, Sport…), cada uma com grupos de componentes mais ou menos requintados, dependendo do preço.

Ela é só um exemplo de bicicleta das grandes marcas que é trazida de fora. Há ainda gravel bikes da Trek, Corratec, Cannondale, entre outras, que ficam na mesma categoria

Se tiver interesse, vale acessar a página da Specialized com todos os modelos de Diverge.

Adaptações

Por ser uma bike que cai claramente entre as Mountain Bikes e as Speeds com características marcantes de bikes híbirdas, é muito comum encontrar ciclistas que adaptaram suas magrelas para Gravel Bike.

Um exemplo muito legal disso é do George Volpão.

Ele é muito entendido de bikes, trabalha em bike shop e tem um canal no Youtube onde fala, entre outras coisas, sobre suas experiências com Gravel Bikes. O vídeo abaixo é do George comentando sobre a transformação (gravelização) que fez de Kode Straat:

Se você se interessar em convertar uma bike em uma Gravel – o que muita gente tem feito – sugiro fortemente também que entre no grupo Gravel Bikes Brasil no Facebook.

Lá há um monte de gente falando desse tema também.

Também existe a possibilidade de você importar uma bike, ou comprá-la importada. Isso foi o que eu fiz, e é o que nos leva a próxima sessão deste post:

3. Minha experiência com uma Gravel

Agora é Maio de 2019 e eu tenho essa bike há mais de um ano e milhares de KMs pedalados. É a Macho Man da All-City. Sim, um nome péssimo. Mas a bike…

A bike

All-City é uma marca que faz predominantemente quadros de Cromo e Aço e bikes de Gravel, fixas, entre outras. Eles tem uma proposta bem legal.

Eu sou o segundo dono dessa Macho Man. O primeiro trouxe de fora e andou uns 100km antes de vendê-la para mim. Suas peças não são exatamente iguais às de fábrica da All-City, mas no geral o dono anterior manteve uma estrutura bem parecida.

Não são peças de ponta, mas são componentes excelentes. O setup é mais ou menos assim:

  • Peivela, passadores, freios mecânicos e corrente Sram Rival;
  • Câmbio Sram Apex 1;
  • Quadro em liga de Cromo Molibdênio;
  • Pneus WTB nano 40mm;
  • Pedais clipless Shimano m520.

Eu tentei importar uma mesa mais curta e um guidão Flared Drop da Alpkit. O produto chegou nos correios daqui da minha cidade depois de 3 meses de espera e por “erro de sistema” mandaram ele de volta para o Reino Unido… sério!

E a essa altura eu já fiz absolutamente tudo com ela, como você vê no meu outro blog:

Resolvi então dar uma nota de 1 a 5 para cada quesito em que a usei, sendo 5 “nossa, excelente” e 1 “meu Deus, me tire daqui”.

Asfalto

A postura aerodinâmica dos drops ajuda demais em trechos mais planos e os pneus mais largos não comprometeram (pelo menos não aparentemente) o meu desempenho.

Como eu não busco performance, e sim conforto, a geometria mais relaxada dela me deixou confortável durante todo  o pedal.

– Nota 5

Estradão

A bike é muito boa no estradão, mas é inegável que pedalar numa estrada de terra muito pouco conservada é bem mais confortável numa Mountain Bike – que é o caso da maioria das estadas de terra da minha região.

No geral, em trechos mais planos, eu consigo velocidades mais altas com a Gravel que com uma Mountain Bike, mas o conforto diminui bastante.

A nota que vou dar abaixo é levando em consideração a maioria dos pedais que existem aqui na minha região: uma mistura de 70% no estradão e 30% de asfalto. Se fosse 90% estradão eu já tiraria um ponto a mais.

– Nota 4

Descidas e subidas técnicas

Ao contrário do que eu pensava, essa relação 38d na trente e 11×42 atrás sobe muito bem! Em algumas subidas mais técnicas e bem íngrimes (trechos acima dos 18%) eu ainda conseguia pedalar, ainda que a 5km/h.

Acho que a alternativa com pedivela super compacto com duas coroas, 46×32, por exemplo, seja ideal para uma gravel. Se tiver a oportunidade no futuro vou trocar por uma relação assim.

Nas descidas mais técnicas, no entanto, eu sofro bastante com ela. O problema nem é tanto a perda de controle por conta da ausência da suspensão ou dos pneus mais estreitos – isso na verdade afeta bem pouco. O principal problema é a postura bem agressiva que o guidão drop dá e que cansa muito rápido minha coluna e braços.

Eu queria muito ter tido a oportunidade de testar a bike com o guidão flared drop e a mesa mais curta (obrigado, Correios), mas infelizmente não deu.

– Nota para a subida  3 

– Nota para a descida  2 (com meu guidão atual. Imagino que vá para 4 com o Flared Drop)

Cicloturismo

Viagei com ela diversas vezes. A Gravel sempre é fenomenal carragando as bolsas de bikepacking. Não tive problema algum em passar por terrenos mais acidentados com o peso e a postura nela foi super confortável ao longo de vários dias de pedal.

Perfeita para a maioria das cicloviagens.

– Nota 5

Vale a pena ter uma Gravel Bike?

Como você pode ver, eu tenho a gravel há um bom tempo e já fiz muita coisa com ela.

No dia a dia ainda consigo pegar alguns single tracks e descidas técnicas, pedalo longas horas no estradão e no asfalto.

Deste modo, deixo aqui algumas opiniões a respeito dela.

Eu acho que você pode pensar em ter uma gravel se:

  • Você pedala igualmente em estradão e asfalto com uma mountain bike;
  • Vai fazer cicloturismo;
  • Quer reduzir os custos de manutenção de uma suspensão (suspensão ou é boa e cara e desnecessária para passar por cima de poças de lama e pedregulhos, ou é barata e  ruim e será um peso morto na sua bicicleta. Leia “Suspensão barata ou garfo rígido?“)
  • Encara alguns single tracks de bike Cross Country, se necessário;
  • Quer uma opção mais equilibrada entre conforto e desempenho para pedais de longa distâncias e cicloviagens.

não ter uma gravel se:

  • Se você SÓ pedala em asfalto ou só em trilha, uma speed ou MTB dedicada faz mais sentido;
  • Se você não tem segurança em descidas técnicas, o guidão drop será um desafio a parte;
  • Se você preza por conforto e controle que a a Mountain Bike dão

Acima de tudo, eu diria que eu não trocaria uma MTB por uma Gravel. Elas não são substitutas e servem para propósitos diferentes.

Pessoalmente eu acredito que fiz a escolha certa em ter essa bike. Já acompanhei amigos mountain bikers em estradas de terra e amigos speedeiros em estradas asfaltadas. Speed só voltarei a comprar se estiver bem de grana, pois a Macho Man (nome péssimo, eu sei) vai bem.


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